Artigo de opinião de
Diogo Sendim Lourenço
(presidente da direção “Os Académicos”)
“Implementar, desenvolver e sustentar uma modalidade desportiva que não seja Futebol em Portugal é, hoje, um exercício de resistência, persistência e profunda injustiça estrutural. Esta é uma realidade que muitos conhecem, poucos assumem e quase ninguém combate com a seriedade necessária.
Vivemos num país onde o Futebol absorve, de forma esmagadora, a maioria dos apoios públicos e privados, deixando todas as restantes modalidades a disputar migalhas. Esta desigualdade não é apenas evidente, é institucionalizada. Existem clubes exclusivamente dedicados ao Futebol, alguns com apenas um escalão Sénior, que conseguem apresentar orçamentos superiores aos de clubes que trabalham diariamente com centenas de atletas, promovendo formação, educação, valores e inclusão social.
No nosso caso concreto, falamos de um projeto que envolve mais de 250 atletas de Formação, distribuídos por vários escalões, com treinadores qualificados, dirigentes voluntários, equipas técnicas, logística, deslocações, material, arbitragem, seguros, inscrições e todas as obrigações legais que o desporto exige.
Ainda assim, somos constantemente confrontados com a falta de apoios, com a dificuldade extrema em garantir sustentabilidade financeira e com a sensação permanente de estarmos a lutar contra um sistema profundamente desequilibrado.
É importante dizer isto de forma clara e sem rodeios: é muito difícil sustentar o Voleibol, e qualquer outra modalidade, quando os critérios de financiamento continuam a privilegiar quase exclusivamente o Futebol. Os apoios públicos, que deveriam servir o interesse coletivo, o desenvolvimento desportivo e a formação dos jovens, seguem muitas vezes lógicas de visibilidade imediata, retorno político ou pressão mediática. Os apoios privados, por sua vez, tendem a replicar este modelo, canalizando investimentos para onde já existe excesso, em vez de apostar onde existe verdadeiro impacto social.
Enquanto isso, clubes como o nosso assumem um papel que vai muito além da competição. Somos agentes educativos, sociais e comunitários. Formamos atletas, mas também cidadãos. Promovemos hábitos de vida saudáveis, combatemos o abandono desportivo precoce e oferecemos alternativas reais a centenas de jovens. Tudo isto com recursos limitados, muitas vezes à custa do esforço pessoal de dirigentes, treinadores e famílias.
A pergunta que se impõe é simples: que modelo desportivo queremos para o futuro? Um modelo centrado numa única modalidade, ou um ecossistema plural, equilibrado e justo? Continuar a ignorar esta desigualdade é comprometer o desenvolvimento do desporto nacional e desperdiçar talento, trabalho e dedicação.
Esta nota não é um pedido de favor. É um apelo à equidade. É uma denúncia de uma realidade que precisa de ser discutida com frontalidade. As modalidades ditas “amadoras” não o são por falta de ambição ou qualidade, são-no porque o sistema insiste em não lhes dar as mesmas condições.
Sustentar o Voleibol é difícil. Sustentar a Formação é difícil. Sustentar um projeto sério, abrangente e socialmente relevante é extremamente difícil. Mas continuar em silêncio perante esta injustiça seria ainda mais grave.





